Catraca subjetiva

[Este texto faz parte da newsletter Beyoncé à Mercê, que pode ser assinado aqui]

Esta reflexão começa num ônibus de excursão na cidade de Campinas, interior de São Paulo. Éramos uma turma de alunos de Ensino Médio, de todas as séries, rumo à Unicamp, onde acontece anualmente um grande evento de apresentação e divulgação do ensino e da produção acadêmica da universidade. Alguns meninos levavam na mochila e nas costas um pandeiro, um cavaquinho e um violão: a ideia era fazer um pagode quando chegassem por lá. O esquenta se dava viagem. Um outro colega batia ritmicamente no banco do ônibus, improviso que provavelmente se estenderia em algum banco de praça da faculdade. A professora que nos acompanhava fazia questão de reprovar os alunos barulhentos, que cantavam alto ao fundo do ônibus. Ao entrarmos na Cidade Universitária, passando por uma portaria e por um grupo de policiais, a professora decide, antecipadamente, nos dar um conselho que também tentava nos traçar um destino:

“Olhem bem para a Unicamp, vocês jamais pisarão aqui como estudantes…no máximo, faxineiros ou funcionários de manutenção”. E deu um risinho sarcástico.

A sentença tinha seus respaldos sociais: nossa escola ficava próxima ao condomínio de funcionários da Unicamp e, de alguma forma, estávamos mais perto de ocupar postos com baixa qualificação do que tornarmos acadêmicos. Se algum de nós quisesse passar da ponte pra lá, certamente enfrentaria muitas dificuldades, tanto materiais quanto imateriais. Após mais de dez anos deste episódio, posso afirmar que os desafios imateriais foram os piores.

Talvez por eco da voz desta professora, cresci acreditando que alguns espaços não eram para mim. A Unicamp mesmo, lugar onde algumas pessoas da minha família ainda acham que é um hospital, foi um espaço de trauma por muitos anos. Eu já era graduanda no segundo ano de Letras na USP quando precisei chegar à universidade campineira para um evento. Acabei me perdendo, não sabia andar no campi, hiperventilei e caí. A quem me socorreu, atribuí o piripaque ao calor da cidade.

Morando em São Paulo, descobri que algumas pessoas que conheci tinham a mesma sensação de desconforto com a USP. Uma dessas pessoas, que já era uma profissional bem-sucedida, relatou para mim o incômodo do dia em que pisou os pés na universidade pela primeira vez. Outra pessoa, inclusive muito próxima e muito querida, me persuadia em pequenas doses de comentários a desistir da ideia de continuar estudando ali. A USP tinha tudo para ser um trauma para mim. Porque, assim como a Unicamp, parentes meus só entraram lá para trabalhar em obra. No caso, meu vô, que foi mestre-de-obras do Velódromo na década de 1970. Talvez o trauma uspiano não exista porque só soube da história depois de adulta. Nenhum fantasma da subalternidade me espantou do caminho de volta à cidade onde nasci.

Mas ainda sentia acuada com a dimensão de certos lugares. Casa das Rosas, nunca consegui entrar. Biblioteca Mário de Andrade, não passava da sala de leitura. É curioso que aconteça justamente em espaços gratuitos, de ensino e/ou de cultura. Meu vô, em 2012, quando me acompanhou até a USP para realizar a matrícula, me perguntou duas vezes (uma na ida e outra na volta): você tem certeza que não precisa pagar nada?

No primeiro ano de USP, fui voluntária do Cursinho da FEA (Faculdade de Economia e Administração), uma das faculdades mais luxosas do campi do Butantã. Naquela época, parte mínima do alunato de graduação e pós-graduação era favorável à instalação de catracas. Houve resposta do movimento estudantil. O projeto sofreu recuo. Os alunos do cursinho, todos da rede pública, desabafavam: nem precisava da catraca para se sentir intimidado em se aproximar do prédio.

Eu passei a chamar essa tensão psicossomática de “catraca subjetiva”. Nenhuma novidade do ponto de vista da análise das experiências de sujeitos subalternizados. Há textos (apócrifos) de Freud que falam de filhos de operários que tiveram piripaque quando foram viajar de avião pela primeira vez. Há uma extensa bibliografia sociológica sobre o assunto, começa com Bourdieu. Há quem defenda e fetichize a curva determinista de certas ciências e especulações, pois para algumas pessoas (privilegiadas ou não, às vezes é só questão de adesão ideológica, como no caso da excursão), é importante que as coisas permaneçam nos mesmos lugares que sempre estiveram.

Um pouco antes da pandemia, no último dia em que estive na USP, ocasião em que pude ministrar um minicurso de extensão, flagrei uma rodinha de calouros da Poli. Todos negros. A cena só foi possível graças à implementação de cotas raciais na graduação, que ocorreu há pouquíssimo tempo — não cheguei a ter colegas cotistas. Uma aluna do grupo dizia: eu tenho vergonha de falar que estudo na USP. Apesar de aprovados, predominava a sensação de que aquela sigla, historicamente defendida por uma pequena elite intelectual branca, ainda era sinônimo de privilégios e posicionamentos com os quais eles não partilhavam.

Das duas, uma: ou se queima a catraca subjetiva forjando uma dimensão coletiva (e também subjetiva) do espaço em que se ocupa, a partir de uma narrativa-outra da instituição (a USP de Milton Santos, de Sueli Carneiro, de Nilma Lino Gomes etc) ou se deixa levar por um regime que legitima a impossibilidade da nossa trajetória. No primeiro caso, o trabalho é maior: é preciso fundar uma nova forma de ser-saber, outra linguagem.

[Continua…]

Luto pela menina textual

Talvez o castelo da reputação textual tenha se desmoronado no dia em que Amadou Hampâté Bâ apareceu na minha frente, explicando as técnicas que a tradição de seu povo empenhava em manter para a constituição de um vasto repertório narrativo. A desconfiança estaria no registro escrito, como ele mesmo parafraseia: “a escrita é uma coisa, e o saber, outra. A escrita é a fotografia do saber, mas não o saber em si”.

Talvez essa inquietação tenha se dado quando comecei a estudar Libras, na dificuldade de manter as anotações enquanto a professora surda sinalizava. Não era possível, embora ela nos desse alguns segundos entre uma explicação ou outra. Tomava-se muito tempo da aula. A anotação de sinais, feita com muita demora e de forma ineficaz, é um recurso típico da cultura ouvinte. Poucos eram os alunos que conseguiam acertar a maneira de anotar o movimento, configuração de mão, orientação, etc. As descrições quase sempre falhavam, nos conduziam a sinais amorfos ou apenas estranhos ou inexistentes. Desenhar estava fora de cogitação para a maioria de nós. Decidi fechar o caderno e fazer o exercício da memória.

Por toda a minha infância e adolescência, fui uma menina textual. O que equivale a dizer que eu escrevia, escrevia e escrevia. Sobretudo em cadernos de escola que sobravam folhas ao fundo. Eu não anotava a aula de inglês porque para aquela língua eu tinha memória. Sobrava espaço para escrever poeminhas e uma certa estorinha que, se não me engano, levou um ano para ser concluída. Era uma mistura de uma narrativa que meu pai me contava quando eu nem sabia ler e escrever direito com alguns elementos de Sítio do Pica-pau Amarelo: a ocorrência de personagens do folclore brasileiro e um porco como vilão. Minha relação com o Sítio se devia mais ao remake da série na Globo do que pelos livros do Lobato. Na série da Globo tinha trilha da Cássia Eller. No livro, a ilustração datada e demodê se sobressaía a qualquer universo ficcional que pudesse ser interessante. Eu preferi ler outros livros.

Como pude me esquecer que uma das minhas primeiras experiências artísticas foi com vídeo? Aos 13 anos eu peguei uma câmera fotográfica de baixos recursos e me pus a gravar um gelo derretendo no quintal de casa. Não consegui gravar o cubo virando água na ardósia, enquanto eu tentava expulsar meu cachorro da cena. Naquela época queria registrar mais, os recursos escassos, porém, impediam. Fui para a fotografia mal posicionada e desfocada, a estética da fotografia emo.

Só a escrita que conseguiu me convocar à identidade. Eu me entendia como um projeto de poeta, um projeto de escritora. Não me entendia como possível fotógrafa, possível dançarina, possível artesã. Para nós que somos pobres, cujos familiares mais próximos são pouco escolarizados, a linguagem escrita desempenha uma função sacerdotal: é você, que escreve bem, que será responsável por reler as cartas, revisar os e-mails, redigir aquele anúncio em site de venda de coisas usadas. Até hoje cumpro gratuitamente o job de revisão de placas pintadas a tinta spray…”vem cá, o certo é chupe-chupe ou chup-chup?”

Ocupar esse lugar é um indicador de prestígio no círculo que vivi e vivo ainda hoje. De certa forma, fui mobilizada por tal anseio de inserção: ser vista e ser útil aos meus. Depois, o curso de letras: ser competente aos de fora. Ser tão boa até que eu pareça um deles. E é aqui que a identidade com a escrita se encontra com as identidades que me atravessam. Tomada de consciência. Um mestrado que me faz ler mais que a média do meu país, uma quarentena que me deixa muito tempo em um bairro em que as pessoas lêem pouco. Como o meu corpo foi, aos poucos, deixando de ser reconhecido pelo texto?

Observo os movimentos. A variedade dos andares. A postura das mulheres. A postura dos homens. A maneira que as pessoas permanecem paradas no ponto de ônibus. A forma com que eles ajeitam as máscaras no supermercado. O trabalho dos olhares. O gesto do açougueiro. Os movimentos passaram a ganhar um sentido para mim, na mesma época em que vários dos meus textos estão estancados. Inconclusivos. O movimento se finaliza; meus poemas, não.

Josephine Baker

Acontece que aquela menina presa aos cadernos morreu. Não sei exatamente a data, mas com certeza aconteceu durante a quarentena. Permanecer sentada por mais de uma hora tem se tornado um tormento. Invento de ler sentada em lótus no chão, ganho tempo. Como naquele meme do sujeito que lava as louças na postura da árvore do yoga. Não se trata de ser duplamente produtiva, de fazer um exercício físico enquanto se “exercita” a mente. Trata-se de conduzir as atividades cotidianas de outro modo que não seja o da domesticação. Permanecer sentada nos domestica. Particularmente, me enfada. Acaba me convidando ao sono.

O movimento do corpo também é uma forma de produzir conhecimento. A divisão mente e corpo, modelo criado pela colonização, não vinga e nem dá liga direito quando forjamos a construção de um cotidiano que nos prioriza por inteiro. Mente é corpo. Mente é quadril, é bunda, é garganta. Por isso dançar, para mim, é uma atividade que complementa a pesquisa — embora, tematicamente, meu mestrado não fale sobre dança. Nem tema, nem conteúdo. É estrutura.

O segredo é rebolar para manter a produção de pé.

Autorretrato: II Oficina de escrita e fotografia

Aos sábados – 12 e 19 de dezembro – das 17h às 20h

Vagas limitadas!

Investimento:
Mínimo de R$90,00 (há reserva de vaga para bolsistas!)

Inscrições pelo link: https://forms.gle/8jZ2vjYcGMqBvGp86

Proposta:
Esta oficina percorrerá uma trilha de dois atalhos: primeiro, as discussões teóricas em torno dos gêneros literários que residem sob o guarda-chuva das “escritas de si” – autobiografia, autoficção, memória, testemunho, etc – e inscrevem problemas e dilemas de ordem ética e estética na construção de realidades e subjetividades. Segundo, o retrato, sobretudo o autorretrato que, enquanto objeto digno de análise, também transborda a problemática dos limites da autorrepresentação. Se, quando eu retrato algo ou alguém, sei mais sobre mim do que sobre o objeto ou o sujeito retratado, o que sei sobre mim mesma/o/e quando eu me retrato?

A partir destes dois eixos, o exercício proposto para a oficina estabelecerá relações entre imagem e texto, ao mesmo tempo em que incorporará as leituras e os debates críticos de nossa aula.

Cronograma:

  1. (12/12) Apresentação, aula e proposta de exercício
  2. (19/12) Leitura e discussão dos textos

Público-alvo:
Qualquer pessoa interessada no tema e que queira escrever.

Bibliografia teórica:

BARRENTO, João. O género intranquilo: anatomia do ensaio e do fragmento. Lisboa: Assírio & Alvim, 2010.
BENJAMIN, Walter. Obras Escolhidas I: Magia e Técnica, Arte e Política. São Paulo: Editora Braziliense, 1996.
_____. Rua de Mão Única. Infância berlinense: 1900. Belo Horizonte: Autêntica, 2013.
GAGNEBIN, Jeanne-Marie. Lembrar Escrever Esquecer. São Paulo: Editora 34, 2006.
________. História e Narração em Walter Benjamin. São Paulo: Editora Perspectiva, 2013.
KLINGER, Diana. Escritas de si, escritas do outro: o retorno do autor e a virada etnográfica. Rio de Janeiro: 7Letras, 2007.
LEJEUNE, Philipe. O pacto autobiográfico: de Rousseau à Internet. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2008.
LOPES, Silvina Rodrigues. Literatura, defesa do atrito. Chão de Feira, 2012.
MORETTI, Franco. O romance de formação. São Paulo: Todavia, 2020.

Sobre a oficineira:

Bianca Gonçalves é mestranda no programa de Estudos Literários de Língua Portuguesa da Universidade de São Paulo (ECLLP/USP). É bacharela e licenciada em Letras pela mesma universidade. Também é professora, revisora, escritora. Publicou, em 2019, o livro de poemas “como se pesassem mil atlânticos” (Urutau). Mantém o blog “Bianca não é branca” (https://biancanaoebranca.wordpress.com/), onde publica crônicas, contos, resenhas e ensaios.

Listas

Muitas coisas me impediram de bater o portão da minha vó num sábado de manhã. Na infância, era o trajeto desajeitado de rua sem asfalto, córrego pulsando lodo, escorpiões e cobras em dias de chuva. Quando o asfalto chegou, eu contava com um pouco mais de doze anos. As codornas do quintal da minha vó perderam a graça, assim como o pé de pitanga. Nem Pretinha estava mais ali, a cadela vira-lata que fazia guarda no quintal. O que passou a motivar minhas visitas era o interesse nas histórias do meu vô, homem de muitos amigos, constantemente flagrado nas ruas do bairro carregando um violão nas costas. Quando meu vô era jovem, contava, tinha uma banda, responsável indiretamente pela sua demissão na fábrica onde trabalhava. Um traço familiar de rebeldia, impulso raro para uma família tão religiosa. E eu gostava daquilo.

Na minha adolescência, as brigas constantes com meus pais, as roupas largas e meu ateísmo precoce acabaram me afastando paulatinamente dos meus avós. Um hiato que só chegou ao fim quando, depois de formada, eu voltei a bater aquele portão de madeira contando sobre a vida adulta. Era um alívio para minha vó saber que eu não voltava grávida ou viciada em drogas. Retornava professora e ela, finalmente, orgulhosa de mim. Desde aquele abraço, voltei àquela casa munida de potes com sobremesas, mudas de plantas e esmaltes de cores exóticas, como ela mesma gostava. Ela me retribuía com histórias de sua juventude.

Quando a pandemia veio, cessaram as histórias. Fui então responsável por educa-los sobre vírus, contaminação e higiene. Afinal, eu sou professora, e isso eles respeitam muito. E me ouviam. Insisti para que ficassem em casa. Pedi ajuda de vizinhos. Era o câncer de pele do meu vô. E a pressão alta da minha vó.

Através da janelinha do portão – a mesma que a gente usava para espiar se tinha alguém na casa – meus avós começaram a me passar listas de compra. Era a forma que encontrei de cuidar deles. Até então, eu desconhecia o jeito que meus avós escreviam. Meu vô, que pôde frequentar a escola, era o redator oficial da casa. Solicitava bananas, maçãs, pães integrais sem açúcar. Itens de rara acentuação. As grafias estranhas também aconteciam: biscoito de “povinho” e um leite com zero “laktozi”, uma maneira de escrever que nunca entendi bem. As listas vinham dobradas, junto do dinheiro guardado da aposentadoria. Sempre era meu vô quem aparecia no portão. Era ele quem sabia escrever e que guardava o dinheiro. “Como está a vó?”, eu perguntava. Meu vô variava as respostas, entre indiferentes “tá dormindo” e “tá deitada”. Eu insistia, queria saber se ela queria algo.

“Nessa altura, a gente só precisa comer bem mesmo”.

Meu vô continuava rebelde e aquilo deixou de ser bonito. Na fresta do portão, nos espaços entre um item e outro da lista de mercado, nas longas pausas da minha vó, eu recolhia lacunas de hesitação que me ofereciam alguma narrativa alternativa sobre a história da minha família. Aquela que não tinha banda, que não madrugou nas ruas, que não bebeu até cair. Eu fazia um trabalho difícil de entender os silêncios. Mas eu também não aguentava não poder ouvir mais nada. Não ouvir mais a minha voz da minha vó.

Um dia, acabei chegando atrasada. Bati no portão. Meu vô parecia não estar em casa. Teria desobedecido novamente? Batia no portão, insisti. Demorou até ouvir um barulho de chave e um andar demorado. Uma mão rechonchuda, com longuíssimas e pontiagudas unhas, apareceu na fresta do portão com algumas moedas e notas de dinheiro:

“Eu preciso de um esmalte. Verde. E um vidrinho de acetona.”

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Esta crônica foi escrita durante a Oficina de Escrita de Crônica ministrada por Cidinha da Silva, mestre no gênero e que muito me ensinou durante essa semana. Seus cursos e livros podem ser adquiridos aqui.

Crença, conversão e cura em “Lua Nova”, filme de Philippa Ndsi-Hermann

Seguindo minhas pesquisas sobre a performance para meu segundo livro, me deparo com uma obra que se contrapõe perfeitamente com o que pretendo fazer (ao menos em termos de filiação): o filme Lua Nova, de Philippa Ndsi-Hermann, realiza trajeto autobiográfico que cruza a história da construção de um porto, a vivência contemporânea do povo de Lamu e a vida de um menino muçulmano em formação numa escola corânica. A partir de fotografias, filmagens e (video)poesia, Philippa traz para sua narrativa as intersecções que integram o caminho de quem acaba conduzindo a própria vida como arte. A identificação com o Islã, mais especificamente, com o Sufismo, chega à multiartista a partir da construção de seu próprio filme.

cena extraída do filme

Em entrevista, Philippa diz algo muito bonito sobre o impacto das produções audiovisuais em nossas vidas telespectadoras: a tela (do cinema, da TV, do computador) tem sido, desde o século XX, uma espécie de altar, onde nós recorremos para relaxar, descansar a mente, canalizar. Se a/o artista é uma espécie de médium, que se conecta com o espiritual para fazer sua arte, é dever dela/e apresentar algo que o espectador possa se conectar com algo maior, o divino.

A beleza e a sensibilidade de Lua Nova me ajudam a não desaprender a olhar para tais obras com afeto, mesmo que eu tenha uma narrativa totalmente oposta à dela em termos de religiosidade. Assim como o olhar para as mulheres crentes, para as mulheres que escolheram para si esse caminho.

(Este filme ficou disponível na plataforma do Sesc Digital, na mostra CineÁfrica até dia 07/10).

Fotografia e escrita: uma oficina

Inscrições no formulário: https://forms.gle/DFRNo1BRBgeev1VUA

7, 14, 21 e 28 de novembro, das 19h-21h, pelo Google Meet

R$ 80 (valor social) | R$120 (valor justo) | R$160 (valor abundante)

Para a inscrição de bolsistas, acesse o link: https://forms.gle/DK7AhgauMgD4RXiv7

Vagas limitadas!

Sobre a oficina:
Fotografia e escrita participam de processos importantes na construção do sujeito e da sociedade: ambas elaboram narrativas, poéticas e éticas sobre o passado, são partícipes dos fenômenos históricos e historiográficos, conferem o efeito de arquivo. No âmbito privado, a escrita perpassa nosso cotidiano em cartas, recados, listas de supermercado, bem como a fotografia, dos álbuns de família às “selfies” no espelho e na academia. Ambas expressões também permitem um exercício comum e corriqueiro: o resgate do texto ou da foto, independentemente de sua natureza, quase sempre nos conduz a uma reflexão – geralmente desorganizada – sobre o que e como era (e éramos) na época do registro ou da escrita. Esta oficina tem por objetivo retirar da transitoriedade o arquivo fotográfico dos/as/es participantes. Para tanto, mais do que correr até o sótão ou retornar ao HD externo onde se guardam as fotografias, nossos exercícios trabalharão, sobretudo, com a memória e a ficção. Fotografias rasgadas, rabiscadas, cortadas, manipuladas ou simplesmente perdidas também serão suporte para o nosso processo.

Dividido em quatro partes, cada dia da oficina contará com um tema específico e um corpo de referências que irão conduzir os encontros (ver o cronograma).

Todos os dias de oficina contarão com exercícios práticos de escrita. As pessoas inscritas receberão uma guia de referências (poemas, romances, filmes, fotografias etc) e propostas de atividades escritas que visam estimular a criação do texto (seja ele em prosa ou em verso). Nos encontros, iremos refletir sobre as produções indicadas e partilharemos nossos processos.

Público-alvo:
Qualquer pessoa interessada na relação entre fotografia e escrita.

** Atenção: o valor social atende pessoas interessadas que se encontram em dificuldades financeiras. Caso possa e queira pagar o valor justo ou abundante, você acaba ajudando a custear as vagas para bolsistas. O oferecimento das bolsas está condicionado à contribuição das pessoas inscritas pagantes. Sobre a inscrição para bolsistas, acesse o link: https://forms.gle/DK7AhgauMgD4RXiv7

Cronograma:

  1. (07/11) Apresentação e introdução da oficina e das propostas
  2. (14/11) Estados da ausência: precariedades e (des)afetos
  3. (21/11) “Trago comigo um retrato/ que me carrega com ele bem antes”: memórias e pertenças
  4. (28/11) “…ser todas as pessoas do retrato ao mesmo tempo”: representatividade, identificação e abstração

Sobre a oficineira:
Bianca Gonçalves é mestranda no programa de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa na USP. Também é bacharela e licenciada no curso de Letras pela mesma universidade. Além de pesquisadora, é professora, revisora e poeta. Publicou seu primeiro livro em 2019 pela editora Urutau, como se pesassem mil atlânticos. Mantém, desde 2016, o blog “Bianca não é branca”, onde publica crônicas, ensaios e resenhas (https://biancanaoebranca.wordpress.com).

Foto da imagem: eu mesma versão bebê, álbum da família.

Seu nome é Andresa: a mulher negra portuguesa no século XX e o ventriloquismo colonial

Ao trabalhar com a autoria negra no contexto português ou, ainda, a autoria feminina portuguesa, exijo-me retroceder em termos de registro e arquivo.
Chego ao começo do século XX, precisamente no ano de 1912, no livro A Preta Fernanda: Recordações d’uma colonial. Embalado pela deriva da moda literária europeia das “falsas autobiografias”, o livro é escrito por dois homens portugueses, nomeados obscuramente de A. Totta e F. Machado. Dois homens que fazem de Andresa do Nascimento (ou, como aparece em jornais, Andresa de Pina) a subalterna Fernanda do Vale que, na vocalização deles, torna-se uma mulher bestializada, fetichizada, subestimada. Sendo uma das cocotes e dançarinas mais celebradas de Lisboa no começo do século passado, Fernanda/Andresa faz parte de um movimento ambíguo: ao mesmo tempo em que, no imaginário cultural português, ela seja constantemente mencionada (Andresa esteve presente na I Conferência Futurista de Portugal e serviu de modelo a uma estátua), ela é também vítima de um ventriloquismo discursivo que faz de seu corpo — o corpo da puta — o espaço de exercício colonial por si. Em A Preta Fernanda, a narradora afirma ser merecedora dos eventos que insistem em colocá-la como subalterna.

Resgatar Andresa, chamando-a de Andresa (e não de Fernanda), faz parte de uma tarefa decolonial em que procuro não corroborar com a fantasia imperialista construída por aqueles dois homens que lograram em sua prática ideológica.

É dessa forma que abro os caminhos para a minha aula sobre o livro Memórias da Plantação: episódios de racismo cotidiano, de Grada Kilomba, que acontecerá amanhã pelo YouTube, no Canal da FFLCH, às 14h30 (horário de Brasília), dando destaque aos possíveis diálogos com as literaturas portuguesas. Acompanhem!

A ética do clique (e a poética do título)

Acompanho um canal no YouTube de uma franquia de academia de dança dos Estados Unidos, aquelas voltadas unicamente para o público feminino. Não sei exatamente como caí naqueles vídeos, talvez os algoritmos tenham me empurrado twerk abaixo, durante alguma madrugada insone. Quase todos os vídeos do canal levam o mesmo (e curioso) título:

❤❤❤ SHE CAN’T DANCE ❤❤❤ — incluindo os corações.

Ao clicar em algum dos vídeos, a surpresa: a mulher ali SABE dançar. E muito bem. Há pessoas (a maioria?) que clicam no vídeo na expectativa de assistir alguém dançando muito mal. Há quem espere uma dança bêbada, incapaz e deformada. Eis a definição de clickbait.  Afinal, vídeos de pessoas dançando “mal” é um gênero de viral altamente aclamado, que contempla a exposição de diversas categorias subalternizadas pela sociedade, de idosos com baixa mobilidade até jovens com alguma deficiência motora. Meus amigos mais engajados, inclusive, riem disso e compartilham.

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É o que eu tenho chamado despretensiosamente de “ética do clique”: há uma moldura que atravessa os links, imagens, microtextos da internet, feitos para atiçar a necessidade de engajamento do indivíduo. Talvez seja por isso que os textos mais compartilhados sejam sempre os mais polêmicos. Talvez se o redator daquela matéria inútil do BuzzFeed ou da Vice não tivesse dado um título tão curioso para o seu artigo você nem tivesse lido. Todos entenderam isso: desde o portal militante que usa as cores vermelho e preto até o editorial da Folha de S. Paulo. Inúmeros canais usam o recurso do thumbnail dos vídeos para promover seu próprio chamariz.

Claro que os recursos dessa ética não são inéditos. Em algum momento da minha graduação, lembro de ter lido ou ouvido falar da importância de dar bons títulos para nossos trabalhos e artigos. O título-pergunta, por exemplo, é uma boa estratégia, além de ser ótimo para evitar possíveis argumentos totalizantes e autoritários. Podemos nos lembrar de uma quantidade generosa de boas obras acadêmicas e literárias cujos títulos são perguntas: Pode o subalterno falar?, de Gayatri Spivak; É isto um homem?, de Primo Levi; Que farei com este livro?, de José Saramago.

Ou ainda: o uso dos recursos poéticos dos títulos, no que diz respeito à aproximação do som e do sentido. Gosto de um Hegel e o Haiti, ensaio da historiadora Susan Buck-Morss. Gosto mais ainda de um Os meninos iam pretos porque iam, livro de poemas de Lucas Litrento. O título do meu blog, por exemplo, Bianca não é branca, demorou um ano para surgir. Eu tinha a ideia clara de que era necessário que o título fosse muito bom e que pudesse resumir em poucas palavras do que se tratava o blog e sua autora.

Com isso quero dizer: não abra mão do título de suas criações, não importa o que elas sejam. Faça bom proveito do ímpeto alheio do clique, se precisar. O título é geralmente o primeiro contato que o seu possível público tem com o seu trabalho. Título não é, necessariamente, a síntese da obra. Os manuais de redação nos levam ao engano.

A última mesa de bar do mundo

Primeiro, com muito sacrifício, demos conta de encontrar um lugar que abrisse em plena segunda-feira à tarde. Não era perto de casa, ou melhor, não era perto de nossas casas, precisávamos pegar dois ônibus para chegar na rua de paralelepípedo, um estabelecimento pintado de amarelo que levava “boteco” no nome. O horário antiproletário favorecia a vizinhança universitária, e nós, embora fôssemos mais que universitários, não cabíamos ali. Nossas áreas eram distintas: eu na ciência política e ele na filosofia do direito. Porém, ouvíamos coisas parecidas de nossos respectivos orientadores, sobre escrita, autoria, tom de voz. Também cumpríamos nosso papel exceção: pretos na pós-graduação.

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Tínhamos muito a conversar. Assim que demos o match no aplicativo, ele puxou assunto sobre o resultado das eleições. Soube o que eu pesquisava (deixo a informação clara na descrição) e encontramos facilmente um interesse em comum. De início, trocamos muita bibliografia, mas pouco flerte. Eu evitei mencionar meu relacionamento passado para não ter de ouvir o dele. A área do direito, imagino, elitista até dizer chega, um catálogo de ex-namoradas loiras e o meu gesto ancestral, que vem desde minha tia retinta, primeira formada na família (e em medicina), ao inconscientemente me comparar com elas. Não conseguia tirar da minha cabeça: será que ele pede tanta indicação de artigos e livros porque insiste em me enxergar como um apanhado bibliográfico ambulante?

Combinamos às quatro e meia, no ponto de ônibus perto do bar amarelo. Nosso encontro só aconteceria na semana seguinte. Optamos pela antecedência por conta de nossos compromissos, pois moro somente com a minha mãe, cuido da minha avó doente, tenho um irmão pequeno e, sendo a irmã mais velha, preciso cuidar da casa inteira. Sair de casa exigia muita negociação interna, e talvez seja por isso, por ficar tanto em casa, que eu tenha me tornado uma pesquisadora.

Trocávamos ideia toda noite e noites inteiras. Diferentemente dos outros rapazes que conheci por aplicativo, ele não pedia foto de agora, não fazia um comentário sequer sobre a minha aparência, nem chegou a dizer que me prefere de trança do que de black, ou vice-versa. Nem uma proposta de sexting. Nenhuma indireta de duplo sentido. Era um alívio poder conversar com alguém que me enxergava como uma intelectual em formação, mas ao mesmo tempo me exauria. Desconfiei: por que ele pergunta tanto sobre estudos?

Era segunda de manhã, dia do nosso encontro, quando recebi a mensagem: “querida, estou com muita febre”. Pensei que se tratava de uma desculpa. Já tinha até nos imaginado comendo petiscos, eu estava ansiosa, não saía com alguém há um ano. No meu imaginário, construí um cara que não era nada bom em conversas virtuais, mas que seria ótimo de papo pessoalmente. Bonito demais, cheguei a sonhar com ele me pegando, com a boca dele se espalhando pelo meu corpo, a criatividade dele ao falar baixaria no meu ouvido…

Ao mesmo tempo, eu também mantinha a minha dose de autoestima e, tendo certeza que aquilo era uma desculpa, decidi ir pro bar sozinha. O clima havia mudado repentinamente, uma chuva torrencial começou a cair enquanto eu caminhava até o bar, logo que desci do ônibus. Por azar, eu estava sem guarda-chuva. A rua de paralelepípedo não parecia em nada com o que eu havia visto nas fotos da internet. O chão da rua parecia fundo, via-se apenas água na superfície e, ao avistar o fim da rua, onde ficava o bar, tudo se encontrava alagado. Eu estava com as meias molhadas, cansada daquela caminhada na tempestade e por isso decidi voltar para casa. Como se não bastasse, no caminho de volta, tudo ficou escuro.

Tive medo ao atravessar a rua. Era muita água, semáforo desligado, relâmpagos e carros buzinando. Parecia o fim do mundo. Abracei a mim mesma, numa sensação conjugada de frio e desespero, esperei o ônibus de volta por quase meia hora. Após esse dia, decidi não sair de casa, não bisbilhotar aplicativos, não desenvolver encontros, não criar imaginários. Precisava ser melhor ainda no que eu mais sabia: ficar em casa estudando.

E depois disso, de fato, não pudemos sair de casa. A pandemia nos isolou de qualquer possibilidade, frustrada ou não, de encontrar pessoas. Superando o date que nunca tive, e o date comigo mesma, eu reunia forças e foco para o que mais importava. Isso não me impediu de, em algumas noites, ser assaltada por um sonho estranho em que eu estava numa mesa de bar, daquelas de plástico, bebendo cerveja enquanto conversava com ele. Daí o chão se afundava, o mundo desabava em nossas cabeças, exceto a porção de calçada onde ficava nossas mesas, e ali nós nos escorávamos e boiávamos no apocalipse urbano, como se fosse um iceberg de um Titanic boêmio.

Foi inclusive em alguma dessas noites que fui dormir tarde e acordei assustada, pelo pesadelo e pelo nosso tempo, chequei o celular e me deparei com a mensagem:

“Oi, sumida. Vamos voltar a conversar sobre política?”.

 

 

 

Bate-papo com Yara Monteiro

Com o intuito de fechar com chave de ouro o minicurso CULTURAS NEGRO-PORTUGUESAS (oferecido por mim de modo remoto durante o mês passado), no dia 27/06, às 17 horas no horário de Brasília (e 21h no horário de Lisboa), vou bater um papo com a escritora Yara Monteiro, autora de Essa dama bate bué! (2018), livro ainda inédito no Brasil. A obra foi discutida na última aula do minicurso.

A live será transmitida pela minha conta do instagram, @biancanaoe.

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