Sobre “Sangue Negro”: a importância da estreia de Noémia de Sousa no Brasil

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Em tempos de poesia marcadamente engajada e protagonizada por mulheres negras, Noémia de Sousa chega ao Brasil. Lançado em Moçambique em 2001, Sangue Negro recolhe a vasta produção poética da escritora e jornalista que fez-se conhecida através de jornais como O Brado Africano . A ausência de uma edição física confiável em nossas terras não impossibilitou a circulação de seus poemas: Noémia é uma antiga interlocutora de autoras e autores brasileiros, negros e brancos e que, graças à combinação dos saraus com a internet, chegou aos mais variados espaços. Este ano, a Editora Kapulana lança com exclusividade o único livro da autora, numa edição atenta ao olhar do/a leitor/a brasileiro/a, com glossário e notas explicativas, além de uma série de mensagens e depoimentos daqueles que conviveram com Noémia e sua obra.

Considerada “mãe dos poetas moçambicanos”, Noémia de Sousa resistia ao formato livresco por conta do analfabetismo de seu povo, reafirmando, dessa forma, o lugar da palavra poética nos circuitos da oralidade – os mesmos que a fez conhecida por aqui. A construção da identidade negra, a busca pela africanidade e a exaltação da liberdade são temas constantes em sua poesia, como demandava a geração de poetas pré-independência, sendo também recorrentes poemas de homenagem a figuras como Jorge Amado e Billie Holiday. Tamanho engajamento que, por vezes, a poeta questiona o próprio intento poético, como em “Poesia, não venhas!”:

(…)

Hoje, eu só saberia cantar

a minha própria dor…

Ignoraria

tudo o que tu, Poesia,

me viesse segredar…

E a minha dor,

que é a minha dor egoísta e vazia,

comparada aos sofrimentos seculares

de irmãos aos milhares?

(…)

Os temas que circulam Sangue Negro são extremamente atuais e percorrem vívidos pelas veias da literatura afro-brasileira. Reler os poemas de Noémia de Sousa nos faz lembrar a tônica de resistência circulante nos Cadernos Negros ou, ainda, na geração de jovens poetas negras como Débora Garcia, Mel Duarte e Elizandra Souza.

 

A pré-venda de Sangue Negro está disponível no site da Editora Kapulana. O lançamento em São Paulo ocorrerá na Balada Literária no dia 26 deste mês, às 16h, na Biblioteca Alceu Amoroso Lima. Mais informações aqui.

 

 

 

A Flip aconteceu de fato nas margens

 

Sei que esboço um sorriso irônico quando leio na grande mídia que o mote da Festa Literária de Paraty desse ano foi a produção marginal. Não, meu gesto não tem nada a ver com algum tipo de defesa ou disputa em torno desse adjetivo – empregado no campo artístico há miliano, diga-se de passagem. Minha gracinha tem muito mais relação com o drible acidental que aconteceu na presente edição do evento e que acabou abrindo espaço para uma discussão muito mais interessante do que qualquer uma proposta pelo centro: ao homenagear uma autora incluída naquele grupo de escritores que fizeram o tal do “surto da poesia marginal”, a Flip legou a uma poeta inscrita numa certa marginalidade o lugar que já fora ocupado por Mário de Andrade, Drummond, Machado de Assis, etc, isto é, o espaço canônico, mostrando que do repertório polissêmico de marginais só há um que pode ser ouvido: o “marginal” de uma classe média branca que questionava certas propostas artísticas de esquerda e que também conseguiu feminizar os bancos das universidades na década de 1970. (Devo acrescentar aqui que o machismo foi intenso inclusive dentre eles, que muitas vezes ignoraram a obra de Ana Cristina César, intercalando com comentários sobre sua aparência).

É importante destacar que Heloisa Buarque de Hollanda, em suas pioneiras pesquisas sobre essa geração de poetas marginais, ignora a produção literária de autores negros que, coincidentemente, se organizavam naquele mesmo período – lembrando que a primeira edição de Cadernos Negros (justamente de poesia) surgiu em 1978. Os movimentos que surgiram posteriormente em torno da palavra “marginal”, sobretudo no final da década de 1990 e início de 2000, pareciam  bater de frente com uma certa tradição artística detentora de poder, restituindo o termo a quem combinava a marginalidade estética à posição social. “Marginal” continuou sendo aquele que escreve à margem, como fala Leminski, mas agora com determinadas urgências identitárias que evocavam o periférico geográfico.

As escritoras negras que pesquiso, como Elizandra Souza, Jennyfer Nascimento, Tula Pilar, dentre outras, foram algumas que deram rosto a essa tendência, demarcando a questão de gênero a um movimento que de início reproduzia discursos de uma masculinidade muito parecida com o que era visto no rap, por exemplo, se focarmos nas expressões que eram próprias da periferia. É interessante notar que é também via hip hop que muitas artistas periféricas ganham destaque. Vale destacar as coletâneas Perifeminas, que cumprem bem seu papel desnaturalizando a retórica de que o hip hop sempre foi coisa de homem e que apenas atualmente temos uma presença feminina.

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Conceição Evaristo, Brisa de Souza e eu ao fundo: mesa que compus na Casa da Cultura de Paraty

Em mesa sob o título “Mulheres negras na literatura marginal”, que tive o prazer de compor, Conceição Evaristo afirmou que as margens – ou melhor, as nossas margens – tem força de abalar o centro. E é justamente essa força que fez possível com que a programação externa fosse muito mais interessante do que a da Flip oficial (a que chamo carinhosamente de “fliplayboy”).

Roberta Estrela D’alva, que também apresentou o sarau de abertura da fliplayboy, criticando o racismo da esquerda branca (sim, aquela mesma esquerda que antigamente cumpria seu papel estético de contracultura!) e divulgando seu livro teórico sobre o Teatro Hip-Hop, lançado pela série “Estudos” da editora Perspectiva – mas com uma sobrecapa “postiça” com o título escrito em letras grafitadas, artifício que parece tentar chamar a atenção de um público que essa mesma editora não estava acostumada a dialogar. Ana Maria Gonçalves, autora de Um defeito de cor (que soube depois que era o livro favorito de Taís Araújo!), lembrando que a programação branca da Flip acabava refletindo em seu público, hegemonicamente branco. Sérgio Vaz, agitador cultural da Cooperifa, falando que os saraus  fizeram a poesia se curvar para seu público, tirando-a da torre de marfim e colocando na boca de declamadores/as da periferia , em iniciativas que fizeram muito mais pela divulgação da literatura do que qualquer universidade ou curso de letras – essa última constatação é minha.

A potência das margens, que posso chamar agora com todas as letras de força da periferia, foi a que, inclusive, me levou até lá, como convidada. O tensionamento que conseguimos provocar esse ano vai obrigar a organização da Flip de 2017 a repensar sua curadoria.

 

[ERRATA: Ricardo Aleixo me chamou atenção sobre os poetas mencionados por Heloisa Buarque. Há um autor negro incluído neste grupo, Adauto Santos, presente na primeira antologia, o qual foi ignorado no meu texto. Enfim, vacilo retificado]

Ser um escritor ruim é um privilégio branco

Uma hora de voltinha numa das maiores livrarias da cidade é o bastante para se constatar que escrever mal e/ou não oferecer nada de novo para a literatura é um privilégio branco.

Volta e meia a produção literária de autoras negras é deslegitimada sob o argumento de que se trata de uma literatura ruim. Diferentemente do que ocorre com autores (brancos) ruins que publicam em grandes e médias editoras, mulheres negras sofrem interdição antes mesmo de se mostrarem como escritoras. A explicação para esse fenômeno é a combinação do racismo aliado ao machismo, receita cruel que tenta afastar as mulheres negras do papel de protagonistas (em todas as áreas) a todo custo.

Muitas vezes, autores/as brancos/as que “estão começando” carregam também o privilégio de serem lidos sob o signo da potência. É como se fulano/a não fosse “tão bom” hoje, mas naquilo que ele/a produziu há elementos potentes, que podem, um dia, transformá-lo/a num/a bom/boa escritor/a.

Lutar para que autoras negras sejam lidas sob essa perspectiva é uma estratégia válida e totalmente diferente da análise limitada do identitarismo (se pertence a uma minoria é, automaticamente, bom), usualmente utilizada por aqueles que tentam deslegitimar e deturpar o ativismo literário negro.

Nesses momentos, lembro de Carolina Maria de Jesus que, ao conquistar seu espaço de autora best-seller, queria a porra toda. Em Casa de Alvenaria, livro publicado no ano seguinte ao Quarto de despejo e infelizmente legado ao esquecimento, Carolina expressava seu desejo em ser cantora, dramaturga e poeta, mas seu editor, Audálio Dantas, cerceava seus sonhos sob o argumento da “preservação da imagem” da escritora; um gesto que também escondia a impossibilidade da sociedade de enxergar mulheres negras como multiartistas. O próprio, inclusive, frente às vontades de Carolina, aconselhou-a a ser “mais humilde” (o arquétipo da preta metida existe há muito tempo!), e ela genialmente respondeu: “Que orgulho posso ter? Eu procuro só o que é humilde para fazer. Fui empregada doméstica, catava papel, moro na favela. Você não vai querer mais humildade do que isso”.

Atualmente o cenário vem mudando e cada vez mais nós estamos ocupando espaços que historicamente foram negados a nós. Já estamos chegando ao ponto em que o centro daqueles que intermedeiam o poder não conseguem mais conciliar a contradição de um país de metade da população negra ter, midiática e artisticamente, uma representação homogeneamente branca.

Façamos então a porra toda ser nossa.

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Carolina Maria de Jesus

Flip 2016 é das mulheres…brancas

Não foi com muito espanto que soube da notícia da programação da Festa literária de Paraty (Flip) deste ano. Desde 2014 vem surgido uma demanda muito grande de visibilidade de mulheres na literatura, fortalecida, em parte, pelo movimento feminista. A campanha “leiamulheres” abriu um nicho de discussões que possibilitou uma série de inegáveis avanços, como clubes de leitura voltados à produção literária feminina, divulgação de autoras esquecidas, dezenas de resenhas na blogosfera literária, etc (ver mais sobre essa discussão no texto que escrevi ano passado para o Blogueiras Negras).

O cenário continuaria maravilhoso se a reflexão de Kimberlé Crenshaw, intelectual feminista afro-estadunidense, falhasse em relação à conjuntura brasileira. Entre a década de 1980 e 1990, Crenshaw se dedicou a analisar o legado das políticas identitárias nos Estados Unidos e constatou um problema: a lei anti-discriminação, um dos legados do movimento por Direitos Civis, não atendia às mulheres inseridas em grupos étnicos marginalizados – além das afro-americanas, latinas, asiáticas, árabes, etc. Crenshaw também observou que algo muito parecido ocorria nos movimentos feministas: várias reivindicações fixadas pelo feminismo mainstream baseavam-se, muitas vezes, num sujeito feminino universalista, isto é, branco e de classe média.

Algo muito parecido também acontece aqui: iniciativas como o”leiamulheres”, na medida em que investem em políticas identitárias, acabam projetando uma mulher universal, justamente aquelas publicadas em grandes editoras: num contexto em que 94% dos autores publicados em grandes editoras são brancos e 73% são mulheres, já dá pra prever qual é a porção mais prejudicada da história. E, portanto, com o objetivo de se pensar nas especificidades de diferenças intragrupos, Crenshaw elaborou a noção de interseccionalidade.

É graças a essa reflexão que no final do ano passado eu criei o projeto Leia Mulheres Negras. Em novembro, à convite da minha amiga e também escritora Jarid Arraes, dei um curso da extinta Casa de Lua sobre o tema “autoras negras da literatura brasileira”. Enquanto preparava as aulas, constatei que havia um enorme vácuo em relação à produção literária negra feminina na interweb feminista, inclusive dentro de círculos feministas negros. Criei a página com o intuito de divulgar nomes, além dos cursos que continuo ministrando (estamos já caminhando para a terceira edição!), e também tive a oportunidade de mediar clubes de leitura sobre essas autoras, em parceria com a InaLivros. E aí se desdobra uma outra dificuldade.

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Uma possível convidada para um evendo do porte da FLIP: a portuguesa Djaimilia Pereira de Almeida, autora de Esse Cabelo – que sequer ganhou edição brasileira

Maioria dos livros que eu pretendia discutir nos clubes eram difíceis de ser encontrados por duas razões: 1) esgotado na editora ou 2) esgotado com a autora. Vale lembrar que, em virtude do racismo do mercado editorial, uma parte considerável de autores e autoras negras recorrem ao recurso da auto-publicação. E dessa situação vale também  perguntar: por que a Flip 2016 é tão branca?

A resposta para essa pergunta é bem simples: grandes editoras não publicam autoras negras brasileiras. Nesse contexto vale lembrar da iniciativa dos Cadernos Negros, que existe e resiste desde 1978 difundindo a literatura negra, lançando autoras atualmente importantíssimas como Conceição Evaristo, Geni Guimarães, Cristiane Sobral, etc. Com exceção de Conceição Evaristo, que tardiamente está sendo reconhecida graças ao prêmio Jabuti, quantas delas chegam ao público leitor médio?

É curioso notar que fora do Brasil, em países como os Estados Unidos, o contexto é completamente diferente. Uma das mais importantes artistas da cena pop, – uma cantora negra -, destaca em sua produção uma poeta negra: algo que acena para uma demanda que é completamente ignorada por aqui. Inclusive, é muito mais fácil você encontrar numa grande livraria romances de escritoras afro-americanas, como Alice Walker e Toni Morrison, do que de autoras brasileiras.

Não poderia terminar esse post sem antes publicar aqui um poema de Eliane Potiguara, a única escritora afrodescendente (ou melhor, afro-indígena) dentre os 53 convidados/as que, espero eu, seja merecidamente difundida:

NESTE SÉCULO DE DOR
Neste século já não teremos mais bucetas
Porque ser mãe neste século de morte
É estar em febre pra sub-existir
É ser fêmea na dor
Espoliada na condição de mulher.

Eu repito
Que neste século não teremos mais os sexos
Tão pouco me importa que entendam
Possam só compreender em outro século besta.

Não temos mais vagina, não mais procriamos
Nossos maridos morreram.
E pra parir crianças doentes
Pra que joguem nas valas
Nas estradas obscuras da vida
neste mundo sem gente
Basta um só mandante

Neste século não teremos mais peitos
Despeitos, olhos, bocas ou orelhas.
Tanto faz bucetas ou orelhas
Princípios, morais, preconceitos ou defeitos
Eu não quero mais a agonia dos séculos…

Neste século não teremos mais jeito
Trejeitos, beleza, amor ou dinheiro.
Neste século, oh Deus (?!)
Não teremos mais jeito.

 

Um copo de cólera e outro de limonada: reconhecendo o lugar de uma boa obra

[Contém spoliers de Lemonade]

Uma carta de amor às mulheres negras. Uma obra de arte da diáspora negra. Um manifesto feminista negro. Uma revolução da cultura pop. Um desabafo de uma esposa traída. Ou apenas mais um material do imperialismo estadunidense. Essas foram algumas das definições que encontrei nas dezenas de textos produzidos ao longo desses dias após o lançamento de Lemonade, álbum visual de Beyoncé permeado de reafirmações políticas e inovações estéticas. Uma prévia desse trabalho foi vista em Formation, cuja performance gangsta desgastada de citações de marcas, incluindo parcos elementos do movimento negro, obviamente não fazem justiça à complexidade do álbum que a inclui.

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Lemonade é um híbrido de ficção e documentário cujas imagens evocam estéticas muito próprias de dois movimentos distintos, porém correspondentes e interligados: a(s) voz(es) feminina(s) negra(s) e o hip hop.

O primeiro, não por acaso destacado no plural, faz-se presente através de elementos que rememoram o feminismo negro e o mulherismo – esse último pouco difundido no Brasil mas muito presente na produção artística de mulheres negras estadunidenses. A definição de womanism de Alice Walker – quem cunhou o termo – caminha para uma sinonímia em relação à expressão “feminismo negro”, como podemos ler em In Search of Our Mother’s Gardens. Mas toda palavra, enquanto organismo vivo, sofre transformações ao longo de seu uso, fenômeno que não poderia ser diferente em relação ao vocabulário político de mulheres negras – a ponto de existir, por exemplo, práticas como as do mulherismo africana, que se distanciou completamente da proposta de Walker. Reivindicada e reinterpretada por diversas teóricas e ativistas, o mulherismo, nos termos de Layli Phillips, é uma perspectiva enraizada no cotidiano das experiências de mulheres negras, de modo a reconciliar uma relação com o seu ambiente, a natureza  e sua dimensão espiritual. Há uma ênfase na ancestralidade baseada em cosmologias africanas de matrilinearidade, que desembocam no exercício da cooperação feminina negra – e sim, isso também inclui o homem negro. E por se basear em matrizes africanas, o mulherismo definido por Phillips se distancia do feminismo pelo fato do segundo ser sustentado por um histórico eurocêntrico e individualista, ao mesmo tempo em que eles são complementares na medida em que contribuem para a justiça social.

Da mesma forma, em Lemonade ambos movimentos diaspóricos se conjugam em planos muito bem entrelaçados: o filme se inicia com um repertório de imagens de florestas e campos no qual Beyoncé aparece declamando o verso “eu tentei fazer de você um lar” de Warsan Shire, a quem, inclusive, a noção de “lar” é muitíssimo cara. Shire é uma poeta somali-britânica que ganhou destaque na Europa após seu poema Home viralizar nas redes. Nele, Shire tematiza a questão dos refugiados: “ninguém deixa o lar a menos que lar seja / a boca de um tubarão (…) você precisa entender/ que ninguém coloca seus filhos num barco / a menos que a água seja mais segura do que a terra”. Mas aqui, na obra de Beyoncé,  o”lar” evoca a construção da subjetividade feminina negra ligada à questão amorosa e as dificuldades de se lidar com o homem – o namorado ou marido – que parece repetir os gestos do pai: “Você lembra meu pai, um mágico/ capaz de estar em dois lugares ao mesmo tempo./ Segundo a tradição dos homens em meu sangue/ você chega em casa às três da madrugada/ e mente pra mim./ O que você esconde?”. O questionamento acerca de condutas próprias de uma masculinidade negra começa a ser delineado na poética deste filme.

A cena seguinte, acompanhada de uma imersão na água, mobiliza signos de tom religioso: “Fui ao subsolo/ confessei meus pecados/ e me batizei num rio (…)”. A verve de devoção e entrega ao amado presente nos versos de Denial garantem a tônica da mensagem seguinte: Hold up insiste numa voz lírica que busca indícios de uma traição: “O que é pior: parecer ciumenta ou louca?”. E, segundo alguns fãs, não se tratava apenas de um vídeo sobre quebrar hidrantes, carros e câmeras de vigilância com um taco de beisebol. Beyoncé poderia estar recorrendo à tradição Iorubá ao representar Oshun (mais detalhes sobre essa discussão aqui).

“Cólera”, título da terceira parte do álbum visual, que cria o videoclipe de Don’t hurt yourself, é um dos pontos altos de Lemonade. É aqui que ressurge a estética dos samples, característica própria do hip hop -a mesma que consagrou a fala feminista da escritora Chimamanda Ngozi Adichie em Flawless. Imagens de mulheres negras acompanhadas de falas de Malcolm X (“a pessoa mais desrespeitada nos EUA é a mulher negra”) finalmente atam duas pontas da história: a luta de movimentos por direitos civis e a atual artista (possivelmente a mais) bem-sucedida do mundo, uma mulher negra dos EUA. Intercalam-se a imagens políticas uma letra sobre traição que pulsa a construção de uma auto-estima – a propósito do pessoal continuar político, como bem dizia o mote da segunda onda feminista.

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Warsan Shire, poeta somali-britânica responsável pela verve poética de Lemonade

Recorre-se, durante todo o álbum visual, a imagens que resgatam a noção de irmandade dentro de uma estética mulherista. Algumas pessoas apontaram a influência do filme Daughters of the dust (1991), dirigido por Julie Dash.

Lemonade se destaca mesmo pelo protagonismo feminino negro, garantindo a presença de mulheres que tem se destacado nos últimos anos: Amandla Stenberg, atriz de Jogos Vorazes que se tornou ativista graças a um vídeo no qual fala sobre apropriação cultural, a modelo Winnie Harlow, sucesso no Instagram, a tenista Serena Willians, etc.

A voz masculina surge antecedendo Daddy Lessons, no qual observamos uma conversa  em que uma das partes afirma sobre “retornar às origens, New Orleans”. Com uma levada country, – algo inédito na obra de Beyoncé -, a música reforça as similitudes entre pais e maridos. Tem-se por tema a influência da figura paterna na constituição da subjetividade da voz que narra Lemonade, ressaltando o companheirismo e também colocando a questão da feminilidade em xeque. Tal apoio encontrará sua contrapartida em Forward, através das imagens de mães e irmãs segurando retratos de jovens negros assassinados pela polícia. Freedom também colabora na construção desse éthos político.

Love drought é outro ponto alto do álbum visual. Recuperando novamente a matriz africana, o vídeo faz alusão a uma história do folclore afro-americano: a Igbo Landing. Trata-se de um suicídio em massa de nigerianos que se recusaram a ser escravizados. Uma narrativa que perdura no imaginário da população negra estadunidense que aqui retorna carregado de motivações femininas.

O ciclo esteticamente proposto pelo filme se encerra mesmo em All night (interpreto Formation como uma bonus-track), em que o processo de auto-construção e reafirmação é finalizado pela reivindicação do amor em sua manifestação clássica: uma lovesong com imagens sugestivamente sexuais.

Tem-se então que Lemonade é sobre várias coisas que escapam a uma leitura mais fechada da indústria cultural. Há muitas brechas que precisam ser lidas com cuidado.

 

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Cena do filme Daughters of the dust (1991), filme independente dirigido pela afro-americana Julie Dash.

Dificilmente a esquerda ortodoxa se dedica a assistir produções como Lemonade. Tenho plena certeza de que maioria das críticas que pipocaram em páginas de facebook pretensamente socialistas foi de ativistas que sequer assistiram e/ou ouviram o álbum. Ativeram-se, simplesmente, à recepção de um público beyocista jovem empedernido – tal qual o são quanto a chavões da militância de esquerda.

Esqueceram (ou fingiram se esquecer) que uma obra com as dimensões de Lemonade quebra com muitas imagens consolidadas no massmedia em relação à mulher negra – e, portanto, faz-se revolucionária. Também nos faz refletir qual momento é esse em que vivemos no que diz respeito ao racismo, capitalismo e questões de gênero.

Patricia Hill Collins, feminista afro-americana, se aprofunda no legado dos movimentos por direitos civis e do Black Power ao analisar as perspectivas da geração negra que viveu sua juventude na década de 1990 em diante. Ela explica que o declínio desses movimentos faz surgir um “novo racismo” baseado em aspectos até então inéditos para a sociedade norte-americana. Se outrora o racismo era mais visível por conta da segregação racial, hoje surgem novas estratégias de se manter essa forma de opressão que acabam sendo, muitas vezes, mais difíceis de se enxergar. A juventude negra estadunidense passa a sofrer uma superexposição na mídia a partir de programas de TV, moda, videoclipes e afins, sob a estética forjada pela indústria multimilionária do hip hop. Soma-se a isso a glamourização da miséria, do tráfico de drogas e da hipersexualização de corpos negros e latinos. Apesar de tanta visibilidade, negros e negras continuam em situação de pobreza ou morrendo nas ruas vitimadas pelo racismo. Mas Lemonade, no âmbito meramente estético, parece sair desse tipo de produção esgotada. E isso bota a gente pra pensar.

Sim, é fato que Lemonade  não transformou os modos de produção, como 0 (zero) pessoas haviam previsto. Também não diminuiu a quantidade de negros e negras assassinados pela polícia. Não fez Trump retroceder. Não abriu a caríssima plataforma Tidal pra quem não a pode pagar .Sabe-se que Beyoncé fatura 3 milhões por dia desde o lançamento do álbum visual. Só não tenho certeza se bell hooks, que já deve estar cansada de se deparar com vídeos ao estilo de Anaconda, continuará tão inflexível em relação à Bey.

Não, nada mudou após Lemonade. Mas pelo menos temos agora uma boa trilha sonora.