Uma lua para Sónia Sultuane

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Sónia Sultuane

Em Maputo, sul de Moçambique, meninos e meninas temem levantar suas cabeças à noite para apreciar a Lua. Isto porque os mais velhos fazem circular histórias sobre uma lua feiticeira que joga maldições aos pequenos que se inclinam para assisti-la. É a partir desta tradição que Sónia Sultuane escreve A Lua de N’weti (2014), narrativa infantil que conta a história de N’weti, garota que fora desincentivada desde criança a apreciar o luar, mas que ao crescer rompe com os costumes e aprende não somente sobre a Lua — sua influência sob os mares, plantas e seres vivos — mas, sobretudo, a amá-la.

A Lua interdita às crianças, como o desejo tem sido historicamente interdito às mulheres.

Sónia, a despeito do costume, não teme olhar a Lua, assim como a crescida N’weti. E nem a seus próprios desejos.

E para ela dedicou não apenas o olhar, mas versos. Versos, inclusive, que Sónia dedica à própria Sónia, como em “Fases da Lua”:

Sou feita dessas fases da lua,
às vezes sou quarto minguante, lua nova e outras lua cheia,
sou a repetição dos meus sonhos,
dos meus gostos dos meus gestos,
sou um pedido de palavras bonitas,
diz-me uma coisa bonita!!! diz-me coisas bonitas!!!
mas mais que ouvir, quero sentir esse sentimento
que me enche a alma e me traz esse sorriso de iluminar o mundo,
e apaga qualquer silêncio que em mim habite,
quero sentir esse borboletear,
e quando já não existirem as palavras bonitas,
às confidências genuínas que fiquem as memórias
das tuas mãos a acariciarem a nuca dos meus pensamentos,
digo eu uma coisa bonita!!!
és a memória, a estrela cadente dos meus secretos desejos!!!

Uma vez ao olhar a Lua, e marcar em si mesma suas fases, a poeta também toma para si a pulsão que atravessa a noite. Erótica, a voz lírica de Sónia agarra uma constelação de imagens naturais que entra em comunhão com o corpo feminino, como em “Desejo”:

Quero sufragar teus beijos doces e ternos,
com gosto de salivado açúcar.
Degustar o teu virgem sabor percorrendo-me os lábios,
e a carne terna pressentindo o fresco orvalho
do dia límpido que vai nascer sobre os lençóis brancos,
bordados de espigas eriçadas e de sonhos por desabrochar.
Quero-te dentro de mim procurando com a língua
entre os meus lábios todos os mistérios do prazer
e sentir nos teus olhos cerrados o desejo agarrando-me a alma,
enquanto tocas a minha pele dourada coberta pela tua,
sentindo a breve ondulação dos meus seios pequenos,
macios, fazendo-te cócegas na boca – o meu desejo sorrindo,
porque me quero feminina e toda tua.

Roda das encarnações, publicado em 2017 pela Editora Kapulana, marca a estreia da poeta no Brasil. Apresentando uma poética que escapa aos lugares conhecidos que o leitor brasileiro de poesia africana de língua portuguesa costuma identificar, Roda das encarnações é marcado pela presença espiritual, devotada e apaixonada pelas sensações. O ineditismo de Sónia não deve-se exclusivamente ao fato de ter uma voz lírica feminina e erótica, mas também por ser muçulmana e por ter vivido ao norte de Moçambique, região sobre a qual pouco conhecemos — Mia Couto, Noémia de Sousa, Paulina Chiziane, autores moçambicanos que conhecemos bem, nasceram e viveram ao sul do país. Em 2014, fora eleita “escritora do ano” pelo Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora.

Mais sobre o livro, aqui

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